Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

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Que eu tenho uma grande admiração por Buenos Aires já não é novidade. Vou pelo menos uma vez por ano pra rever amigos, ver futebol (sim, o verdadeiro futbol), bandas, etc…

Posso dizer que me agrada muito o cinema portenho, então, aqui vai mais uma dica de filme.

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, conta a história de Martin, Mariana e seus desencontros.

Eles vivem na mesma cidade, na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro mas nunca conseguem se encontrar. Só conseguem se relacionar via internet. Se conhecem online, mas na vida offline se cruzam sem saber da existência um do outro. Como se encontrar no mundo “real” em uma cidade de 3 milhões de habitantes?

Nas palavras de seu diretor Gustavo Taretto, “Medianeras é o resultado de várias ideias, que em algum momento — que eu nem sei dizer qual — começaram a se unir. A maioria delas é o resultado de minhas observações e da minha curiosidade sobre Buenos Aires e seus habitantes que muitas vezes vivem suas vidas mais na internet do que fora dela”.

Javier Drolas e Pilar López de Ayala

O filme argentino é uma comédia romântica com toques de drama e de filosofia, que escapa do estereótipo já desgastado de comédias românticas, sobretudo as americanas. É um filme leve e divertidíssimo, que nem por isso, agride a inteligência de um espectador mais crítico.

As Medianeras do título são as laterais dos prédios em Buenos Aires, que segundo a legislação local, não poderiam ter janelas. Ou seja, janelas, só na parte da frente ou na de trás dos prédios, o que deixa alguns moradores um tanto quanto sufocados. E esse sufoco é o que dita (metaforicamente) a vida de ambos os personagens, até que cada um deles resolve abrir uma janela por conta própria (e que rende uma cena ótima, devido ao posicionamento das janelas, bem em espaços publicitários, indicando uma “mensagem do destino”, por assim dizer).

Trailer:

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual
(Medianeras, ARG/ESP, 2011, Cor, 95′)
Imovision – Cinema Latino-Americano – 12 anos
De: Gustavo Taretto
Com: Javier Drolas, Pilar López de Ayala

Sobre o diretor (entrevista com ele):

O diretor argentino Gustavo Taretto reflete sobre a solidão contemporânea, a vida nas grandes cidades e o papel da tecnologia mudando as relações humanas.

Como surgiu a ideia das “medianeras” [paredes cegas dos edifícios, sem janelas]?
Vem da fotografia. Durante muitos anos fotografei minha cidade. Fui descobrindo-a, entendendo-a e apreciando-a por meio da imagem. As “medianeras” são uma particularidade de Buenos Aires, produto da falta de critério e homogeneidade de sua arquitetura, tão particular que não existe em nenhuma língua uma tradução precisa. Nem mesmo na Espanha se compreende bem seu conceito. Uma das particularidades das “medianeras” são as janelas que as pessoas abrem de forma ilegal. Creio que foi através dessas janelas que me infiltrei nas vidas de Mariana e Martín. Quebrar uma parede para abrir uma janela é um feito muito significativo e uma metáfora direta e poderosa. Representa a necessidade de mais luz, de ar puro e principalmente de uma nova perspectiva.

No filme, você combina duas questões bem contemporâneas: a solidão e o espaço urbano. A cidade reflete o que seus habitantes são ou o contrário?
Essa é a pergunta que não consegui responder em Medianeras. Creio que senti que não encontraria a resposta, mas gostei muito de procurar por ela.

A sociedade moderna vive um crescendo de angústia e ansiedade que mantém as pessoas cada vez mais isoladas. É o medo da intimidade e de experiências reais que torna indivíduos como Mariana e Martín tão solitários?
Em parte o individualismo, em parte a tecnologia e ainda a realidade (no nosso caso, a latino-americana). A vida nas grandes cidades latinas é mais violenta e imprevisível. As diferenças são obscenas e isso limita os movimentos na cidade. Tenho a impressão de que as pessoas vão se refugiando em suas casas, apartamentos, caixas de sapato ou seja lá o que for. A tecnologia se encarrega de outra parte, nos vende a promessa da conectividade – virtual, é claro – e o mundo delivery faz o resto. Há entregas a domicílio de pizza, de supermercado, de jornais, revistas e até de maconha.

O que um hamster pensaria se nos visse em uma academia correndo em uma esteira?

Tudo o que é importante, dizemos por uma mensagem de texto, por chat ou por e-mail. O cabelo da outra ou a mancha de batom no colarinho da camisa não existe mais. Hoje as infidelidades são descobertas em um SMS.

Em uma cena que não ficou no corte final do filme, Mariana (a personagem principal, vivida por Pilar López de Ayala) reflete: “Tenho mais ímãs de delivery em minha geladeira que amigos em minha agenda”.

Eu não inventei os ataques de pânico, a insônia, o Rivotril, os transtornos de ansiedade, o estresse, o sedentarismo, as fobias, as contraturas e demais patologias sociais. Provavelmente, conhecemos mais pessoas portadoras dessas patologias do que pessoas com cáries…

DA PUBLICIDADE PARA O CINEMA

Nascido em 1965, em Buenos Aires, Gustavo Taretto começou a fotografar profissionalmente em 1983, além de estudar música e roteiro. Em 1993, passou a trabalhar na área de criação da agência Ogilvy, onde tornou-se diretor executivo. Paralelamente à sua atuação na publicidade, que lhe rendeu inúmeros prêmios em festivais como Cannes, escreveu e dirigiu três curtas-metragens – Las Insoladas (2002), Cien Pesos (2003) e Medianeras (2005), vencedor de mais de 40 prêmios internacionais. O curta deu origem ao longa-metragem homônimo que acaba de sair em DVD no Brasil. Lançado no ano passado, o filme recebeu o prêmio do público da Mostra Panorama no Festival de Berlim, além de conquistar público e crítica no 39º Festival de Gramado de 2011. Medianeras foi eleito o melhor filme pelo júri popular, além de vencer nas categorias de melhor longa-metragem estrangeiro e diretor. Taretto realizou ainda os curtas Hoy No Estoy (2007) e Uma Vez Más (2010).

 

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